Pintado chora perda da amante!

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Eu disse para vocês que, num dia de sorte peguei dois pintados em menos de cinco minutos. Mas parece que pintou uma zica, que não me deixou ir mais ao lago pescar. Muitos trabalhos caseiros e uma ventania danada que assolou o lago desde agosto foram alguns motivos óbvios que me tolheram a vontade de pescar.

Mas nesta semana fomos, eu e um amigo, tentar pegar uns tucunarés, mas fomos surpreendidos por uma ventania que levantou ondas enormes e a pescaria resultou num fracasso total. Não pegamos nada, exceto um tucunaré fisgado pelo amigo. E olha que lavamos lambaris daqueles bem atraentes e umas vinte turviras de pequeno porte.

Pra variar, fomos naquele local em que peguei os dois pintados. Aqui na Estância é assim: se você disser onde pegou um peixe grande, no outro dia você não consegue mais apoitar seu barco no mesmo local, pois tem mais barcos aglomerados do que curiosos em um Shopping Center em véspera de Natal.

E esse meu amigo é assim: se você disser que pegou um peixão na Lua ele é capaz de alugar uma espaçonave para chegar lá e conferir…
Como o vento estava forte e soprava do sul, as ondas enormes eram inevitáveis. Aí, já viu: não pegamos nada.

Passadas alguma horas, percebi um reboliço na flor d’água que mais parecia um jacaré tentando se livrar de uma sucuri. E os jacarés normalmente se livram de uma sucuri vencendo-a pelo cansaço. A sucuri enrola toda no jacaré, aperta daqui, aperta dali, mas esquece que um jacaré na água pode ficar até duas horas sem respirar. Quando a sucuri se desenrola na tentativa de engolir o anfíbio, ele sai numa boa e se livra da predadora. Seria bom que o ser humano pudesse ter uma reserva de oxigênio em algum reservatório no organismo. Assim evitaria mortes inesperadas por falta de oxigênio em poucos minutos. Assim mesmo, quando um ser humano ressuscita depois de uma carência momentânea de oxigênio, o cérebro já foi para o brejo pelo que convencionamos chamar de isquemia (bloqueio de irrigação sanguínea).

-Professor, e a amante do pintado?
-Calma! Aquele rebuliço foi provocado por um enorme pintado que aparentava uns vinte quilos ou mais. Vocês se lembram que um dos pitados que eu peguei, pesou uns quinze quilos. Mas eu não sabia que se tratasse de uma fêmea, mesmo porque a gente nunca se importa com o sexo do peixe; o negócio é pegar sempre um grandão. Depois tira fotografia e manda, via internet, para um montão de amigos e parentes, principalmente para os netos que sonham um dia ficar tão bons pescadores quanto seu avô.
Bem, meu amigo, concentrado em suas linhadas não percebeu que o pintado se aproximou de mim, na superfície, com um lenço enxugava suas lágrimas doídas.

Pudera, não é mesmo, gente?! Nada mais angustiante na vida do que perder a mulher a quem amamos…
O pintado, entre soluços, me perguntou:

-Professor, você não viu minha amante, uma pintadinha um pouco menor que eu?! Desde aquele dia que você pescava por aqui ela sumiu. Você a roubou de mim?!

-Não, não! Para com isso! Meu negócio é mulher. Eu lá vou querer me apaixonar por um peixe? Estar a perigo pode ser, mas chegar a ponto de se apaixonar por um peixe é o fim da picada.

-Mas disseram que foi você que levou a Toninha (este era o nome dela).
-Ei ta pega! Como eu podia pensar que peixe tem nome de mulher?!

-Tem sim! Toninha era o nome dela; nome de batismo, registrado em cartório e tudo mais. O meu nome é Zé Breguendé! A gente estava comemorando 5 anos de aniversário dela, quando você a levou embora de mim… Chuifff, buááááááá!
-Eu levei porque ela foi fisgada por mim, quando atacou o lambari que estava no anzol. Isso é normal! Somos pescadores e os peixes que pegamos, levamos para casa e colocamos em um freezer…

-Não sei o que seja um freezer, mas eu quero que você me leve também, porque tínhamos combinado de passar a noite ali na toca do Dida, o jacaré. Alugamos um cantinho da toca para passar a noite e comemorar os cinco aninhos dela… Então eu quero vê-la, mesmo que seja no… (como se diz?)…

-No freezer!
-Isso, isso, isso!
-Mas você não vai gostar nada, nada, porque no freezer faz muito frio!
-Não quero saber; quero ver a Toninha… Minha Toninha! Chuif, buááááááá!
-Para de chorar! Sobe aí no flutuante, que vou levar você para ver a Toninha…
Ao chegar em casa, abri o freezer e coloquei o Zé Breguendé bem encostadinho na Toninha. Acredito que ele esta a fim de… Você, leitor, sabe…
Mas quando ele encostou-se nela, soltou um berro daqueles:
“Toninha, meu amor, nunca pensei que você fosse tão… Gelaaaaaada!!!”

por Lourival S. Bortolin

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