Mídias monotemáticas

SENTA QUE LÁ VEM PIMENTA - CRÔNICA DA SEMANA

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Morte, Medo e Mentira 5m = -E

Cinco m igual a menos E.
Por meio deste simulacro de equação, pretende-se dizer que a associação dos cinco “m”s do título (Mídias Monotemáticas, Morte, Medo e Mentira), resultam em energia negativa.
Explico.

Entre 1914 e 1918, e também entre 1939 e 1945, predominavam nos noticiários as funestas e assustadoras informações provenientes das duas grandes guerras mundiais. Bombardeios, mortes em massa, mutilações, desaparecimentos de entes queridos, fome…
O resultado natural era o definhamento generalizado da esperança, do otimismo e da alegria; e o crescimento incessante da tristeza, do medo e do desânimo. A sensação social era de que os tempos sombrios de morte, recessão, sofrimento e dor não teriam fim.

Dir-se-ía, com razão, que estas eram as consequências da guerra; não das informações sobre ela.
Com efeito, a realidade precisa ser divulgada. A ignorância dos fatos e a falta de consciência da realidade em nada ajudam o caminhar de um povo.

A questão é que o natural clima de horror obscureceu a visão e eclipsou a percepção de fatos positivos que paradoxal e concomitantemente se passavam.

De fato, durante aqueles conflitos ocorreram importantes avanços tecnológicos e científicos, usados a princípio nos confrontos bélicos, mas com legados incomensuráveis para a engenharia naval, aeronáutica, medicina, física nuclear, bioquímica e diversas outras áreas.
Obviamente nenhum desses auspiciosos avanços logrou inspirar sentimentos positivos na população, monofocada e absorvida que se achava pelos horrores da guerra.

Reação anatômica natural do ser humano diante de cenas trágicas é o arregalar dos olhos, fenômeno que, a par de permitir melhor visão da cena focada, retira a visão periférica, causando cegueira parcial e impedindo a observação do cenário circundante.
Nestes quadros de morte e medo, a mentira não se situa na divulgação de fatos irreais; mas em não detectar e não transmitir conhecimento sobre aspectos positivos quase imperceptíveis, porém não menos reais.

O que está em curso neste momento trágico atual é algo semelhante.

Telejornais se dedicam com exclusividade por 30 ou 40 minutos consecutivos à divulgação dos desdobramentos da pandemia. Sites noticiosos igualmente repetem à exaustão notícias de doença e de morte.

Lives de especialistas quase todos os dias, ao longo de um ano, repetindo temas como medidas de distanciamento social, protocolos médicos, estatísticas de morte, desenvolvimento e produção de vacinas, divergências políticas, etc e etc.
As demais redes sociais replicam incessantemente estes mesmos assuntos.

Tudo muito natural. Ninguém pode ficar indiferente à atual aflição da humanidade.
A questão é a monotonia. Encontrar outro tema ou algo que dê algum tipo de alento é tarefa que não se cumpre sem o auxílio de lupas.
Nossos olhos, arregalados para a doença, para a confusão, para as intrigas e para a morte, introduzem em nossa alma a perplexidade, o medo, a ansiedade, a insegurança, e o pavor.

Tudo isto nos torna mais agressivos e desesperançados.
Este “caldo” produz uma negatividade generalizada, com potencial para desestruturar nossa capacidade de reação e superação.
Atemorizados e assustados, ficamos com diminuta clareza para compreensão da realidade. Não fazemos senão exprimir gritos de horror e desespero. A sensatez e o equilíbrio tendem a nos abandonar.

Assombro com a morte!?

Quem nunca?

O neuropsiquiatra austríaco-judeu Victor Frankl , fundador da Psicologia do Sentido ou Logoterapia, terceira escola de Viena, foi um homem admirável e inspirador. Em meio aos dramas da sua vida, sobrevivendo a quatro campos de concentração, teve espaço interior para enxergar a beleza da vida, da verdade e do encontro com o outro, mesmo diante da morte de seus pais, de seu irmão e de sua esposa. Foi preciso que, em meio à tragédia, tivesse olhares para o bem e o bom.

Nossas mentes e nossos corações precisam de oxigenação. Sem negligenciar a realidade, precisamos abrir os olhos da alma para o bem que, discreto, se passa também nestes dias obscuros.

A indignação pode nos ajudar a encontrar caminhos que evitem a repetição de erros. Mas sem a iluminação da esperança ela se torna amarga e não conclui sua obra.

A esperança não há de ser abandonada. O desafio é impedir que ela, esperança, seja sufocada pelo pavor.
A pandemia nos alerta que a morte é vizinha próxima.
Todas as cautelas possíveis.

NÃO QUEREMOS MORRER DE COVID. MAS NÃO PODEMOS MORRER DE MEDO.
(ANTONIO PIMENTA GONÇALVES)

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